sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

se eu morrer por esses dias, de Daniela Damaris

O título já nos induz a algum tipo de reflexão poética (além da existencial, obviamente). A primeira estrofe nos remete a um contexto quase que impensável antes da leitura: sem filhos biológicos, talvez tenhamos filhos pelos nebulosos caminhos da poesia. A segunda expressa o desejo de que a alma espalhe renascimentos poéticos. A terceira faz uma ponte entre os amores (falidos ou inexistentes) deste mundo com os amores de um outro mundo que reluz mil ouros, ou seja, amores reluzentes. No entanto, o eu poético pode morrer de algum outro tipo de amor. A quarta estrofe abranda os anseios e expõe apenas o desejo de que não haja trajes de luto. E, por fim, a quinta e última estrofe, onde é realizada a fusão, no desejo, entre o vagar pelo etéreo e pelo concreto, entre céus e bocas e línguas. Um poema que fala de morte quase que ludicamente. E a morte, tal desejada no poema, deve ser breve, calma, de amor e sem luto. Que morte linda! Que lindo poema!


se eu morrer por esses dias

(Daniela Damaris)



se eu morrer por esses dias
que morra de morte bem breve
que de leve se encostem os cílios
e que os filhos que ainda não tive
nasçam dos versos que aqui deixei


se eu morrer por esses dias
que seja de morte bem calma
que a alma lhes cante auroras
em ases e reis
de poesia


se eu morrer por esses dias
decerto morro de amores
que não há neste
ou noutro mundo
bem que tais mil ouros reluz


se eu morrer por esses dias
não há que trajarem luto
que já morri em cada rima
em que amores
se conduz


que já sou alma que vaga em vida
morta basta que siga
a vagar em céus de negro e sombras
e em bocas secas que rondam
por línguas ébrias de amar



(Obs.: a autora autorizou a postagem do poema acima.)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

De trago em trago, de Cris de Souza

Estruturado em dois blocos, o poema, hoje, segue na contramão do politicamente correto. A caça aos fumantes cresce a cada dia, é bem sabido. O texto não condena o cigarro. Mas não se trata também de uma ode ao cigarro nem ao fumante. No primeiro bloco, um eu que contempla, na fumaça, o esquecimento. No segundo, contempla o entendimento. Esquecer e entender são, na verdade, reflexões comuns aos fumantes em especial. É preciso esquecer certas coisas que ficam em suspenso, à espera de atitudes mais firmes ou objetivas. Mas é preciso entender (e aceitar) a si mesmo, filtrando virtudes e defeitos, para acordar (despertar) algo que parece poder renascer. Poema leve, suave. A fumaça também é leve, suave (de longe, bem longe!). O tema foi tratado com bastante delicadeza. Leitura reflexiva, para os não fumantes e para os fumantes. Para estes, com direito a caracóis de fumaça antes, durante e depois.



De trago em trago

(Cris de Souza)



trago
o esquecimento
na fumaça
dos meus dedos

tentando apagar
meus restos
pendurados
no cinzeiro

trago
o entendimento
no filtro
dos meus dedos

tentando acordar
meus restos
pernoitados
no cinzeiro


(Obs.: a autora autorizou a postagem do poema acima.)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Frase de Mário Quintana















"Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça..."

Lucidez, de Domingos Barroso

Um eu poético que se manifesta ceticamente em relação à vida, às pessoas e aos sentimentos. Já disseram que o cético é aquele que mais tem medo de sofrer. Os desejos do eu (no poema) bem poderiam compor um catecismo dos céticos. No entanto, até mesmo o cético acredita em algo: que existe uma verdade, nem que seja a de que o ceticismo é o caminho, nem que esteja na paz dos chinelos. Poema racional, mas permeado de subjetividades. E uma gota de metafísica (“Sei.../da longa vida que é a morte”). Uma gota num oceano de niilismo. Poema que honra a tradição niilista da poesia.



Lucidez

(Domingos Barroso)



Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.

Que o mundo permaneça alheio
e as coisas inalteradas.

Que a montanha não se mova
em minha direção e o mar
não se corte ao meio
por minha causa.

Que as estrelas nasçam e morram
sem mandarem notícias
do corredor escuro
de outras galáxias.

Que o meu bermudão não mostre seus bolsos
nem procurem nas minhas mãos moedas.

Que as minhas botas durmam
sem sonhar com as calçadas.

Que anjos não pensem em mim
nem façam da minha alma
uma aurora.

Que demônios esqueçam
o vazio da minha mente.

Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.

Sei muito bem das emboscadas.
Da luz que finda e do grito.
Do olhar cúmplice
e da revolta.

Apartem-se do meu coração os arautos da felicidade.
Esses cães dos próprios ossos e da própria carne.

Sei do descuido, da farsa,
da longa vida que é a morte.

Que ninguém e nada prometam-me
a vida e o seu deleite em outra terra.

Que a paz dos meus chinelos
seja toda a verdade
que vejo -

sem truque,
sem medo.


(Obs.: o autor autorizou a postagem do poema acima.)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Carta ao tempo, Aíla Sampaio

Poema em prosa ou prosa poética? A resposta tem pouca (ou nenhuma) importância. O essencial é a viagem pelo tempo, ao vento e nos sentimentos ao longo de todo o texto. O eu poético escreve ao tempo, para que dores sejam levadas, esquecidas. Um amor precisa ser esquecido, para que outro possa ser conhecido (em todos os sentidos). E então há um desfile de alguns desejos, mas, sobretudo, que “sobreviva apenas a poesia soberba da vida” para celebrar um novo amor. No entanto, esse amor ainda não se concretizou, ainda vive guardado nas palavras. Breve ganhará o corpo, o mundo, a vida por inteira. Texto poético: imagens belíssimas (“cartas que escrevo ao tempo”, “de mãos dadas com o vento”, “tatuando em cada poro o cheiro desse amor nascente” e “os sapatos já saíram da caixa. Falta muito pouco para saírem andando por aí”); sentimentos bem cadenciados na estrutura do texto, com a primeira parte (até “Que seque toda seiva que se derrame em vão”) toda dedicada ao antigo amor, e a segunda (de “sobreviva apenas a poesia soberba da vida” até o final do texto) dedicada ao novo amor; pela delicada e sóbria descrição dos sentimentos (dor, desejo, esperança). Belíssimo texto!
(Lamento o comentário não ter sido tão breve quanto o texto principal. Foi inevitável!)



Carta ao tempo

(Aíla Sampaio)


A gente esquece o nome quem têm algumas dores. Sim, porque algumas delas têm nome e endereço fixo, mas não têm remédio. Daí as cartas que escrevo ao tempo, pedindo que passe passe passe, de mãos dadas com o vento, e leve as histórias mal contadas daquele amor que gostava dessa rima pobre. Que não fique sequer um pé de esperança aonde não pode brotar flor. Que seque toda seiva que se derrame em vão e sobreviva apenas a poesia soberba da vida tatuando em cada poro o cheiro desse amor nascente. Esse tem asas que não são descartáveis e só sabe rimar com felicidade. Sua tristeza é sincera, sua alegria não é postiça. Seu esconderijo, por enquanto, são as minhas palavras, mas, em breve, será o meu corpo... os sapatos já saíram da caixa. Falta muito pouco para saírem andando por aí.



(Obs.: a autora autorizou a postagem do poema acima. O link direto da postagem original é http://literaila.blogspot.com/2012/01/carta-ao-tempo.html)