domingo, 20 de maio de 2012

Catando bascui, de Lília Diniz


Um poema delicadamente nostálgico. No sentido tradicional de nostalgia como saudade triste da pátria. E a infância (a boa infância!) não seria a nossa casa primeira e única e verdadeira pátria afetiva? E para lá, à infância, o eu poético se dirige e vai catando cacarecos ainda vivos na memória. Isso porque “Habita em mim/a singela casa/da minha infância”. (Trocadilho feliz!) E as imagens vão surgindo: o quintal farto, o limoeiro traquino, o passaredo em festança, o velho sabugueiro, abril em flores (bela construção!), o telhado de cavacos, lamparinas atrepadas, olhos meninos, o terreiro e o pai. E então chegamos aos bascuís, aos cacarecos. E estes, os bascuís, os cacarecos, muitas vezes tomados como simples objetos descartáveis, comuns ou sem valor são aquelas coisas que compõem os mais belos quadros das nossas memórias, das nossas lembranças, dos nossos sonhos. Que viagem saudosa e agradável a leitura desse poema!



Catando bascui
(Lília Diniz)

 
Habita em mim
a singela casa
da minha infância
 
Na fartura do quintal
o limoeiro traquino
florido sempre
adoçando meus ouvidos
com os cantares diários
do passaredo em festança
 
O velho sabugueiro
perfuma abril em flores
curando febres
estouradas em cataporas
e alucinações
em labaredas
 
O telhado de cavacos
pesa sobre o tempo
que insiste não passar
 
Lamparinas atrepadas
nas paredes de taipa
incandeiam a imensidão
dos meus olhos meninos
 
Sala
quarto
cozinha
abrigam o quase nada de mim
 
Mas é lá no terreiro
barrido todo amanhecer
pelas cuidadosas mãos de meu pai
que brinco de catar
restos de sonhos e lembranças





Obs.: foi solicitada autorização à autora. No entanto, não houve resposta. Caso a autora tenha alguma objeção à postagem do poema acima neste blog, que comunique através do e-mail jberna68@gmail.com.br. De qualquer forma, este blog agradece à autora a existência do poema.

terça-feira, 20 de março de 2012

O Deus que habita em mim, de Elias Akhenaton

Se eu acreditasse em Deus, diria que esse poema me transportou aos mais longínquos e luminosos recantos do encantado mundinho do meu Deus. E que lá vi todas as maravilhas descritas em minúcias sonoras e em vastos conceitos silenciosos. E então o meu Deus olhou o poema abaixo e riu. Agradou-se, pensei. Ele novamente riu.
Se eu não acreditasse em Deus, diria que todas aquelas palavras, de dentro, de fora e do meio, todas postas ludicamente no poema, trouxeram-me reminiscências e vazios de um Deus há muito calado e silenciado em tempos alheios ao meu. E, sob medos e indiferenças, vislumbrei uma face pairando mais acima, quase a rir. Agradou-se, pensei. Esperei um novo riso, que não veio.

(E lá se foi o comentário... Ficam, pois, as marcas desse poema em mim.)



O Deus que habita em mim
(Elias Akhenaton)



O Deus que habita minh’alma,
Vem da aurora dourada
Com seus raios vivificadores
Que renovam as esperanças e a Fé
Para um novo dia...

Vem dos lírios dos campos e
Dos jardins floridos...
Vem do crepúsculo do Sol com
Seu espetáculo de cores douradas
No horizonte...

Vem da noite enluarada
Com suas estrelas brilhantes,
Reluzentes, estrelas cadentes
E sua Lua encantada...

O Deus que habita minh’alma,
Vem do divino orvalho
Da madrugada
Com suas gotículas prateadas
Caindo sobre as flores delicadas...

Vem do lindo azul do mar,
De toda à natureza,
Das matas verdes e igarapés,
Cachoeiras e do lindo
Canto dos passarinhos
Como o canto do rouxinol e
Do bem-te-vi...
Vem dos Salmos de Davi....

O Deus que habita minh’alma
É o Deus do Amor, da mística rubra flor,
Do peregrino e trepidante beija-flor,
Dos nobres sentimentos
E enlevados pensamentos...

Vem da chuva que faz brotar...
Vem do místico arco-íris
Com suas cores sutis...
Vem da melodia
Da inspirada poesia...

Enfim, o Deus que habita em mim
É o mesmo que está em toda parte,
Em tudo e em todos,
No meu e no teu coração,
Somos filhos da mesma criação,
Do mesmo Pai Criador,
Portanto, somos todos Irmãos,
Filhos do Amor!




(Obs.: o autor autorizou a postagem do poema acima.)

segunda-feira, 19 de março de 2012

A pressa dos dias, de Sérgio Bernardo


O poema começa num golpe inevitável do destino: o amanhecer.
E então o eu poético é tomado pela natureza (água/cão amoroso).
Depois, o mistério, a interrogação que sempre paira sob as asas do desconhecido amanhã.
Destino, natureza, mistério. Amplas variações de abstratas viagens pelo universo exterior.
A partir da terceira estrofe, a rotina do cotidiano irrompe no seio do poema,
como a demarcar o espaço primordial do eu poético. Jornais, gato, volumes, rua, casa, dia. Muda-se a direção("porque há muito migrou/para uma dimensão contrária"): 
de um lugar externo e ignorado para dentro do eu poético. Nessa dimensão interior, os jornais (e quiçá a própria vida) "Serão lidos como obra de ficção,/ aqui e ali uma tentativa de poesia". A tentativa de poesia é significativa: representa a possibilidade de haver harmonia e beleza. Mas o rotina se impõe: o leite do gato, a ida ao trabalho, o atraso. Essa rotina desconstrói o interior e o exterior do eu poético. Morre a possibilidade de harmonia e beleza. O eu passa pelo dia como uma breve e insignificante brisa crepuscular ("coadjuvando o dia"). 
Encerra-se aqui o comentário desse belo e premiado poema. No entanto, não resisti a um adendo extemporâneo: “Assim:” o eu volta para casa, para dentro de si mesmo, onde há possibilidade de poesia.
 
 

A pressa dos dias
(Sérgio Bernardo) 


Sem outra opção, amanheceu.
Deixou a água lamber seu rosto
como cão amoroso.
 
Ao dormir, havia o mistério:
acordaria? não acordaria?
Ninguém decifra a intenção do seguinte.
 
Aqueles jornais ancorados no ladrilho
trarão notícias de um lugar ignorado,
porque há muito migrou
para uma dimensão contrária.
Serão lidos como obra de ficção,
aqui e ali uma tentativa de poesia
primariamente rimada.
 
Olhará o gato como animal extinto,
mas encherá o pote de leite
conforme toda manhã.
 
Sairá à rua abraçado a volumes
(a pasta de couro, papéis, guarda-chuva)
uma rua que o desconstruirá a cada passo.
 
Terá pressa. Chegará atrasado. Voltará para casa.
Assim: coadjuvando o dia.



(Obs.: o autor autorizou a postagem do poema acima.)

quarta-feira, 14 de março de 2012

14 de março, Dia Nacional da Poesia

O blog Poesia Selecionada parabeniza a todos os poetas e leitores.


"A poesia transforma todas a coisas em encanto: exalta a beleza daquilo que é mais belo e acrescenta beleza ao que está mais deformado; atrela o júbilo ao horror, a tristeza ao prazer, a eternidade à mudança; subjuga à união, sob o seu suave grilhão, todas as coisas irreconciliáveis." 

P. B. Shelley (1792-1822), poeta, ensaísta e tradutor inglês. In Uma defesa da poesia.


Poesia é vida!