quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

zabelê, de Lau Siqueira

A tentativa de ler o poema sem lembrar de João Cabral de Melo Neto e de Manoel de Barros parece fadada ao fracasso. Mas há mais, muito mais do que essas referências conscientes ou inconscientes, explícitas ou implícitas. Há uma dicção própria ao longo do poema, onde cada estrofe parece acender e apagar pequenas luzes nos pensamentos do leitor. Não são verdades reconhecidas, nem mentiras deslavadas. São fragmentos constatativos e descritivos: a rachadura de eixo, o incêndio das pálpebras, o insano vapor do instante, o sumidouro da espuma e o olhar cariri. Bela construção!


zabelê
(Lau Siqueira)


no sol cabralizante
do verso existe um elo
e uma rachadura de eixo

( texto e contexto
no incêndio das
pálpebras )

linguagem rupestre dum
rio que percorre a palavra
no insano vapor do instante

instinto e lucidez de pedra
no sumidouro da espuma

pluma na fenda da loca e
antropologia num reisado
de olhar cariri

(...e a certeza dos poros
vai bebendo nossos
óleos...)


(Obs.: o autor autorizou a postagem do poema acima.)

Outras Confidências, de Flávio Otávio Ferreira

Poema que remete à solidão drummoniana ou àquilo que Antonio Houaiss chamou de um estar-no mundo que se faz rejeitar-o-mundo para, implicitamente, propor um-novo-mundo. O universo solitário do eu poético parece ter sido uma escolha consciente, mas como sobreviver se “a tristeza aqui dentro instalada/é amálgama de ferro corroído”? Apenas na escrita, no fazer poético, esse eu pode continuar a existir e a ter vida. Só assim ele pode se encerrar “em outra pauta/escrita apenas da alegria que em falta”. Só assim ele pode, inclusive, ironizar o próprio Drummond, funcionário público e fazendeiro. Muito bom o poema, sobretudo para quem já leu um pouco da obra poética drummoniana.


Outras Confidências
(Flávio Otávio Ferreira)



Não sou funcionário público,
Tampouco tive gado, ouro e fazenda.
Na parede, nenhum retrato
Resgata-me da profusão sentimental
A inflar saudades em meu peito.

Vivo submerso em sonhos e retalhos,
histórias e improvisos;
a tristeza aqui dentro instalada
é amálgama de ferro corroído.

Se eu trouxesse todas as prendas exemplares,
Todas as notas de canções já esquecidas
Transmutava essa tristeza descerrada
Em completa explosão de alegria,

Mas, por hábito, abracei o sofrimento,
isolado mergulhando em noites brancas,
de outros tempos da vida erigi lembranças
que se esvaem simplesmente em contradança

De tão porosa a alma está incomunicável,
ferido o orgulho
maquiado qual ferrugem
de tanta mágoa
me encerro em outra pauta
escrita apenas da alegria que em falta.


(Obs.: o autor autorizou a postagem do poema acima.)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ofereço saudades, de Tahyane Rangel

Poema curto, mas incisivamente delicado. Clareza, ironia e criatividade. Conjugação nem sempre tão fácil no fazer poético. Imagens belíssimas (“baú com minhas saudades”, “álbum de sonhos”) em tão poucos versos. Poema sem dor, lamento ou tristeza.



Ofereço saudades
(Tahyane Rangel)




Ofereço a quem interessar possa

um baú com minhas saudades,

Repleto de momentos felizes,

da infância e da mocidade.

Todas em bom estado para uso imediato.

Favor apresentar-se somente aqueles

que saibam com elas construir

um álbum de sonhos.




(Obs.: a autora autorizou a postagem do poema acima.)

estrelas da noite, de Adriana Godoy

Belo retrato dessas estrelas da noite. Triste e cômico. Poema que se lê rápido e sem pausas. A caracterização das putas é ampla e diversificada ( piranhas, vadias, maquiadas, belas, fogosas, fêmeas, machos travestidos, andrógenos, bichos, bichas, seres felizes, morcegos iluminados, vampiros imortais, ratos). Despertam sentimentos e reações diversos (atormentar, seduzir, machucar, amaldiçoar). Humanas, apenas humanas. É essa a impressão que fica das putas.


estrelas da noite
(Adriana Godoy)


passavam sempre ali as putas
piranhas vadias maquiadas
pisavam com passos leves
purpurinas meninas mulheres

passavam ali e atormentavam
os senhores as senhoras
pudicos em seus lares e dogmas
passavam sim e eram belas e fogosas

a noite descia e trazia consigo
as estrelas- vênus das ruas
brilhavam e iluminavam
a vida e os desejos dos homens

não se sabia se eram fêmeas machos
travestidos andrógenos bichos bichas
não se sabia se sonhavam se amavam
se gozavam se seduziam se machucavam

eram estranhos seres felizes
donos da madrugada dos mundanos
dos menestréis mendigos magistrados
dos miseráveis dos mentecaptos dos mortos-vivos

na sombra da noite eram morcegos iluminados
à procura de sangue
dos inocentes ou dos culpados
vampiros imortais em seus desvãos de sedução

quando a noite se ia
e não se via mais a lua
as estrelas das noites
senhoras das ruas e dos bares
maldição de todos os lares
desapareciam nos bueiros da cidade





(Obs.: a autora autorizou a postagem do poema acima.)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Vídeos poéticos

Clarice Lispector - Já Escondi Um Amor




Carlos Drummond de Andrade - Procura da Poesia





Cora Coralina – Saber viver





Vinícius de Moraes - Soneto da Fidelidade - por Paulo Autran